O risco dos dashboards na psicologia: por que escalas não resumem a terapia

Escalas ajudam muito. Mas talvez não resumam toda a complexidade da terapia.
Nos últimos anos, o uso de escalas psicológicas, monitoramento contínuo e modelos de Measurement-Based Care (MBC) ganhou bastante espaço na prática clínica.
E isso é extremamente importante.
A utilização sistemática de instrumentos clínicos pode ajudar o profissional a:
- monitorar sintomas
- acompanhar funcionalidade
- reduzir vieses de percepção
- identificar agravamentos precoces
- avaliar evolução terapêutica ao longo do tempo
Além disso, modelos como Routine Outcome Monitoring (ROM — Monitoramento de Resultados de Rotina) e Feedback-Informed Treatment (FIT — Tratamento Informado por Feedback) vêm demonstrando que a utilização contínua de dados clínicos pode contribuir para melhores desfechos terapêuticos e redução de abandono.
👉 O problema talvez não esteja nas escalas.
Talvez esteja na forma como a longitudinalidade vem sendo reduzida, em alguns contextos, a simples monitoramento psicométrico.
A armadilha da quantidade de escalas
Hoje já existem sistemas que oferecem centenas de escalas psicológicas como principal proposta de valor.
E embora instrumentos clínicos sejam extremamente importantes…
quantidade de escalas, por si só, talvez não garanta compreensão longitudinal do processo terapêutico.
Porque acompanhamento clínico longitudinal talvez não dependa apenas de coletar mais dados.
Talvez dependa da capacidade de integrar:
- percepção subjetiva do paciente
- observação clínica do terapeuta
- evolução do vínculo
- aderência ao processo
- responsividade clínica
- dinâmica relacional
- trajetória terapêutica ao longo do tempo
Na prática clínica, muitos profissionais acabam utilizando continuamente um conjunto relativamente pequeno de instrumentos:
- PHQ-9
- GAD-7
- DASS-21
- escalas de funcionalidade
- escalas de qualidade de vida
E talvez isso revele algo importante:
O que faz diferença nem sempre é a quantidade de escalas disponíveis.
Talvez seja a capacidade de transformar essas informações em compreensão clínica longitudinal.
O risco do reducionismo psicométrico
Existe hoje um movimento crescente de transformar acompanhamento longitudinal em simples monitoramento psicométrico contínuo.
Como se acompanhar scores ao longo do tempo fosse suficiente para compreender a complexidade de um processo terapêutico.
E embora modelos de MBC e ROM tenham contribuições extremamente relevantes para a prática clínica…
Talvez exista um risco quando longitudinalidade passa a ser reduzida apenas à interpretação de escalas e dashboards sintomáticos.
Porque mudança terapêutica não envolve apenas redução de sintomas.
Diversos autores importantes da pesquisa em psicoterapia vêm demonstrando, há décadas, que fatores como:
- aliança terapêutica
- responsividade clínica
- contexto relacional
- flexibilidade psicológica
- engajamento
- mecanismos de mudança
- padrões interpessoais
- capacidade reflexiva
exercem papel fundamental no processo terapêutico.
Kazdin (2007), por exemplo, discute que compreender psicoterapia exige investigar mecanismos e processos de mudança — e não apenas outcomes sintomáticos.
Wampold e Lambert também demonstram consistentemente a importância dos fatores relacionais e contextuais nos desfechos clínicos.
O que as escalas talvez não consigam medir sozinhas
Escalas psicológicas acessam uma dimensão extremamente importante do cuidado:
como o paciente se percebe naquele momento.
E isso possui enorme valor clínico.
Mas talvez não capturem sozinhas toda a complexidade longitudinal do processo terapêutico.
Porque nem toda mudança relevante aparece imediatamente em um questionário.
Às vezes o paciente ainda relata sofrimento intenso… Mas o terapeuta já percebe:
- menor evitamento experiencial
- maior capacidade de elaboração emocional
- melhora da aliança terapêutica
- ampliação de insight
- maior flexibilidade cognitiva
- aumento de participação no processo
- maior tolerância ao contato emocional
E o contrário também pode acontecer.
O paciente pode apresentar melhora subjetiva nas escalas… Enquanto o acompanhamento clínico longitudinal evidencia:
- funcionamento evitativo persistente
- baixa aderência às intervenções
- fragilidade relacional
- oscilações importantes
- empobrecimento reflexivo
- risco de abandono
- dificuldade de generalização das mudanças para a vida cotidiana
Quando o gráfico melhora, mas a clínica conta outra história
Diferentes abordagens contemporâneas vêm apontando que melhora clínica nem sempre ocorre de maneira linear ou imediatamente observável em autorrelatos.
Em muitos casos:
- o sofrimento subjetivo pode aumentar temporariamente durante processos importantes de elaboração emocional
- mudanças relacionais precedem melhora sintomática
- redução de evitamento pode inicialmente aumentar desconforto percebido
- ganho de insight pode coexistir com aumento transitório de sofrimento
Isso talvez aconteça porque processo terapêutico não é composto apenas por sintomas mensuráveis.
Também envolve:
- vínculo terapêutico
- evitamentos
- flexibilidade psicológica
- capacidade reflexiva
- padrões relacionais
- engajamento
- aderência
- evolução comportamental
Nem tudo que é clinicamente relevante aparece imediatamente em escalas.
O futuro da tecnologia em saúde mental
Talvez o desafio contemporâneo não seja escolher entre “dados” ou “subjetividade”.
Talvez seja construir modelos clínicos capazes de integrar diferentes perspectivas do cuidado sem reduzir a complexidade do processo terapêutico.
Talvez acompanhamento longitudinal não seja apenas acompanhar sintomas ao longo do tempo.
Talvez seja conseguir integrar:
- dados psicométricos
- observação clínica
- dinâmica relacional
- contexto terapêutico
- funcionalidade
- trajetória longitudinal
em uma compreensão clínica mais ampla do cuidado.
Talvez uma das próximas evoluções da tecnologia em saúde mental não seja apenas oferecer mais instrumentos.
Talvez seja conseguir estruturar leituras clínicas verdadeiramente longitudinais.
📚 Referências
- Kazdin, A. E. (2007). Mediators and mechanisms of change in psychotherapy research.
- Wampold, B. E. (2015). How important are the common factors in psychotherapy?
- Norcross, J. C., & Lambert, M. J. (2018). Psychotherapy relationships that work.
- Hayes, S. C., Strosahl, K., & Wilson, K. G. (2011). Acceptance and Commitment Therapy.
- Lambert, M. J. (2010). Prevention of treatment failure: The use of measuring, monitoring, and feedback.
💬 E na sua prática?
Como você tem equilibrado o uso de escalas com a sua percepção clínica?
Você já atendeu casos onde o gráfico dizia uma coisa e a clínica mostrava outra?
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